SOS Dignidade começou em 2005 com um projeto fotográfico. Barry Michael Wolfe começou a fotografar as travestis em 2005. Estas fotos-retrato, tiradas na noite Paulista, são editadas, reveladas e assinadas by Michael, e distribuídas gratuitamente às travestis que, muitas vezes, enviam as fotos para as famílias, sendo estes os únicos registros dignos que elas tem de si mesmas. O que começou com um projeto fotográfico de conscientização através da arte, evoluiu em 4 anos para SOS Dignidade, movimento multidisciplinar de resgate dos direitos humanos.

SOS Dignidade tem como objetivo resgatar a dignidade das travestis brasileiras que, vítimas de discriminação, se vêem expropriadas de seus direitos humanos, civis e políticos básicos.

O preconceito oriundo do medo e ignorância resulta em discriminação e, conseqüentemente, em falta de acesso à educação, sujeitando as travestis constantemente à violência, exclusão social, abuso de drogas, crime e exploração, além de riscos severos para a saúde.

SOS Dignidade trabalha em 02 níveis:
  1. Militância direta e pontual de Direitos Humanos.
    A militância de Direitos Humanos do SOS Dignidade é independente, direta e personalizada.

  2. Direitos Humanos via Arte
    Militância em direitos humanos através da conscientização via arte. As travestis, fazendo parte de um submundo pré-político, vivem abaixo do nível de proteção das leis nacionais e internacionais, e aos direitos básicos e fundamentais. Portanto, a militância em direitos humanos, em vez de focar em leis, deve, no primeiro momento, ser direcionada ao resgate da dignidade.

    A valorização da própria vida dificulta a aceitação do sexo sem preservativos somente pela oferta de um cachê maior.

    Direitos Humanos via Arte permite a militância sem interferir ou desafiar estruturas organizacionais do submundo.

Nossos Objetivos
Proteger as vítimas de exploração e contribuir a aumentar sua auto-estima, evitando que caiam nas mãos de exploradores.

Combater práticas medicinais clandestinas.

Patrocinar a formação de uma massa crítica de travestis médicas, advogadas e dentistas.

Trazer as travestis brasileiras à proteção da lei para elas tenham seus direitos de cidadão devidamente protegidos.

Reduzir a vulnerabilidade das travestis a DST/AIDS, dependência química e comportamento auto-destrutivo em geral.

As ações do SOS Dignidade já incluem:
A realidade das travestis brasileiras

Discriminação

A cultura sexual brasileira contém profundos e severamente reprimidos elementos andróginos, as travestis são a personificação deste equívoco cultural.

Travestis e transexuais enfrentam discriminação e humilhação, muitas vezes começando na infância, época em que começam a mostrar-se diferentes. Na escola, são obrigados a usar o nome de registro, sendo alvo de preconceito pelos alunos e pela instituição. O resultado mais imediato desta discriminação é que a educação formal da maioria das travestis não passa do 4a série e muitas são analfabetas.

Na fase adulta encontram dificuldade no trato com o preconceito advindo de autoridades públicas, além de sofrerem grande constrangimento em locais públicos como bares, restaurantes e casas noturnas. Muitas vezes são obrigadas a utilizar entradas destinadas ao público masculino, pagando o preço respectivo, além de serem revistadas por seguranças masculinos.

Travestis adultos sofrem discriminação tanto de pessoas heterossexuais quanto de pessoas homossexuais. Portanto, muitas travestis vivem num submundo hermeticamente fechado com pouquíssimos pontos de contato com a sociedade em geral.

São excluídos de muitas comunidades religiosas, encontrando solidariedade apenas nas religiões afro-brasileiras.

Prostituição

A discriminação efetivamente barra a maioria das travestis do sistema educacional e de carreiras de classe média.

O mercado formal de trabalho é profundamente fechado às travestis. Uma minoria bem pequena tem formação superior ou qualificações profissionais. Com poucas exceções, as únicas profissões abertas são enfermeiras, empregadas domésticas, cabeleireiras, entretenimento em boates gays e prostituição. Em muitos casos, cabelereiras, empregadas domésticas e artistas da noite fazem bico na prostituição.

As travestis muitas vezes são rejeitadas pelas famílias e expulsas de casa, e podem começar a trabalhar na prostituição com até 12 anos.

É comum clientes oferecerem às travestis pagamento adicional, que pode chegar ao dobro do preço cobrado ou mais, para fazer sexo sem preservativo.

AIDS, Riscos à Saúde e Abuso de Drogas

A vulnerabilidade das travestis profissionais de sexo frente às DST/AIDS é indiscutível.

Pobreza, práticas cosméticas ilícitas e acesso severamente restrito ao serviço de saúde expõe as travestis a problemas graves de saúde.

A discriminação e humilhação enfrentadas pelas travestis quando lidam com a burocracia, muitas vezes as desencorajam a procurar ajuda junto ao serviço público de saúde.

As travestis transformam seus corpos através de doses enormes de hormônios. “Bombam” seus corpos com silicone industrial, muitas vezes sem supervisão médica, além de se submeterem a colocação de próteses mamárias e a outras cirurgias plásticas.

Vida Emocional

As travestis sofrem de negligência, falta de afeto e ausência de suporte emocional de suas famílias. Porém, muitas vezes enviam parte ou até todo dinheiro que ganham às mesmas famílias que as rejeitaram na busca de uma demonstração de carinho.

Os efeitos conjuntos da discriminação, falta de educação, humilhação, medo, baixa auto-estima e isolamento social resultam em imensa pressão emocional nas travestis brasileiras. Sem possibilidade de construir uma visão do futuro, elas tendem a viver no presente, acreditando que sua beleza tem prazo limitado e sabendo que as perspectivas são extremamente limitadas de uma vida decente após os 30 anos.

Os riscos de depressão e falta de perspectiva são enormes, além de pressões para entrar no mundo de drogas e crime. Em casos extremos, elas adotam comportamentos de risco onde a AIDS tornar-se inevitável.

Conseguir escapar destes riscos exige extraordinária coragem e força de caráter.

Direitos Humanos

Os profundos problemas sociais que as classes menos privilegiadas enfrentam, em conjunto com a discriminação e marginalização do grupo, faz com que as travestis não tenham acesso aos direitos humanos e legais mais básicos.

Crimes homofóbicos violentos são notórios no Brasil e as piores vítimas são as travestis. Ainda assim, as travestis sofrem de discriminação tanto de homossexuais quanto de heterossexuais.

Restando a única opção de se prostituir nas ruas, as travestis ficam sujeitas à violência da polícia, de clientes, de passantes, de gangues e cafetões. A violência inclui espancamentos, estupro, tortura e tiros, além de intimidação e extorsão. Em algumas cidades, a violência contra travestis é institucionalizada.

O fato de que as travestis podem ser compradas e vendidas por cafetões e traficantes como se fossem “commodity” é a confirmação da sua desumanização.